Escuramente preta

Pergunte sobre a infância de qualquer pessoa preta retinta e não se surpreenda se as dores chegarem antes mesmo do próprio conceito da infância. Sempre comento que pessoas pretas retintas estão no lugar da “não negação”, que opõe o “não lugar”.

Isso quer dizer que, pessoas escuras nunca tiveram a possibilidade de “se misturarem” ou a possibilidade de negar, descobrir a própria negritude. E isso diz muito como a sociedade que valoriza (va) o ser branco, o embraquecimento, trata (va) as pessoas que não se aproximavam do ideal europeu.

Só que o lugar da “não negação” não competia com a compreensão do que era ser negro como uma identidade positiva, para além do que se apresentava. Ao menos, comigo não seguiu por essa lógica.

Sempre soube que era preta e logo fui instruída à autodefesa. Fui orientada a dar respostas prontas (com 3 anos), mas que pouco diziam sobre o que eu compreendia de verdade. Entretanto, foi a primeira possibilidade de defesa e estratégia antirracista.

Pra ser sincera, eu nunca parei pra pensar o que significava ser uma preta escura. Eu nunca tive a oportunidade de entender o que significava ser escura por mim mesma. Esse conceito sempre foi uma percepção de terceiros, eu interpretava isso e adotava.

Logo, ser escura começou a ser um problema. A televisão me apresentava meninas brancas como as mais bonitas e me apresentava as meninas pretas menos escuras como “toleráveis, quase lá”, o que me colocava no lugar de “não possibilidade”. E como dói crescer sem figuras que pudessem fortalecer essa autoestima da Emile criança dos anos 90.

Emile criança
(Imagem: Acervo pessoal)

Em uma pesquisa rápida nas redes sociais, pessoas pretas escuras, em geral, comentaram que ainda estão no processo de aceitação das suas peles e que começaram a se ver positivamente atualmente. Que a infância foi um período violento e que as coisas seriam completamente diferentes se tivessem crescido com figuras pretas que afirmassem o quão positivo é abraçar a cultura/raça preta.

Como entender que a pele mais escura, mais agredida, invisibilizada em um país racista, é um fator positivo? Ser escura em um país que teve como estratégia o embranquecimento cultural, é resistência!

Abdias Nascimento traz em “O genocídio do negro brasileiro”, que:
“A história não oficial do Brasil registra o longo e antigo genocídio que se vem perpetrando contra o afro-brasileiro. Monstruosa máquina ironicamente designada “democracia racial” que só concede aos negros um único “privilégio”: aquele de se tornarem brancos, por dentro e por fora. (…) O processo de assimilação ou de aculturação não se relaciona apenas à concessão aos negros, individualmente, de prestígio social. Mais grave, restringe sua mobilidade vertical na sociedade como um grupo; invade o negro e o mulato até à intimidade mesma do ser negro e do seu modo de autoavaliar-se, de sua autoestima.”

Ao longo do texto, Abdias fala sobre como a “democracia racial” foi trabalhada em cima do imaginário da “assimilação, aculturação, miscigenação”, porém tudo isso foi construído com base na inferioridade do africano e seus descendentes.

E aí deixa margem pra que a gente possa interpretar que quanto menos miscigenados, em traços, tons de peles, mais ainda essa inferioridade, essa negação afetiva, essa desumanização, seria atribuída a pessoas pretas escuras, pois se assimilam aos ascendentes africanos. E o quanto que a miscigenação seria uma arma para nos separar, fazendo com que não nos reconhecêssemos enquanto negros, e aí nos deparamos com muitos termos criados para a negação da negritude de pretos não retintos.

A Redenção de Cam
(Imagem: Reprodução)


Então, sermos escures em uma sociedade que teve como estratégia de genocídio (embraquecimento) da população preta, é resistência, ainda que seja uma resistência instintiva daqueles que nos antecedem. O tempo todo o ideal branco, gritava fortemente que miscigenar e se tornar branco (física e culturalmente) era a solução para uma possível humanização. Esse fato é bem ilustrado na obra A redenção de Cam (Mais informações clique aqui) onde podemos observar uma senhora retinta dando graças pelo embranquecimento do seu neto.

Respira aqui um pouco, coloca Brown Skin Girl e continue a leitura!

Upile Chisala diz em “Eu destilo melanina e mel”, que precisamos criar o hábito de celebrarmos a nós mesmos, da pele à medula dos ossos, pois somos pura magia. Isso é sobre autoconhecimento! Porque a gente só entende o quanto vale por dentro e por fora quando a gente se propõe a mergulhar em nós mesmos, na nossa história. E não é fácil, não quero romantizar todo esse processo. Como dizia James Baldwin “Ser negro neste país (EUA) e relativamente consciente é ficar furioso o tempo todo”, conceito facilmente aplicado no Brasil.

A proposta aqui é entendermos a nossa história, e buscarmos a auto celebração, porque não somos só feitos das violências que vivemos. Precisamos cuidar da nossa saúde mental e buscarmos estratégias de emancipação.

Eu não quero mais aceitar a concepção do outro sobre mim pra que eu possa finalmente entender o quão bonita sou. Eu já fiz isso, como disse anteriormente, o entendimento de ser escura sempre foi com percepção do que diziam pra mim, “Muito escura”. E isso me custou mais que a metade da minha vida acreditando que eu tinha que estar a mercê e mendigar afeto em todas as possíveis esferas porque, afinal, eu tinha um apesar que não compensava.

Lembrem-se que no passado as pessoas tinham uma opinião completamente oposta sobre a nossa cor escura. Não que hoje a cor escura seja celebrada, mas muita coisa mudou. Então, esse entendimento deve ser trabalhado por nós e para nós, não alimentado por terceiros.

Quando Lupita Nyong’o surgiu na mídia, e eu escrevo isso muito emocionada, eu dei um longo suspiro de “Ai meu Deus, finalmente”. Finalmente alguém tão escura quanto a noite, sendo linda, usando cores, sendo incrível e se apropriando de quem ela era sem vergonha. Sem vergonha de ser escura demais! Ela era linda porque também era escura demais.

Lupita Nyong’o
(Imagem: Reprodução)

Quanto mais eu consumia conteúdos e tinha acesso a figuras pretas (e principalmente escuras), mais eu fui valorizando quem eu era. Porque eu me enxergava, logo, via a possibilidade de também ser. E essa é real proposta da representatividade.

Aí a Beyoncé nos presenteia com “Brown Skin girl“. E o papel dos nossos irmãos e irmãs, pretos não retintos, é também na ajuda à manutenção da nossa autoestima. Isso é trabalho de comunidade! Porque entendemos que estamos na mira das mesmas violências, mas que essa violência também é pigmentocratica.

“Brown Skin Girl” Beyoncé | Reprodução: internet

O problema nunca foi ser escura, o problema sempre foi o racismo. E nesse processo, a gente aprende primeiro a se defender antes mesmo de andar, como disse Tânia (uma entrevistada). Esquecemos de valorizar as nossas individualidades e diversidades, enquanto população preta. Estamos caminhando juntos e não há mais volta!

Acredito muito na estratégia como uma forma de recriação e reconexão com o que, por muito tempo, uma boa parte de nós não pôde acessar. Que é imergir nas produções pretas, na educação, na música, cinema, literatura, no cuidado à saúde mental e mais. Escrever e ilustrar tem sido um processo de cura e do “O que eu faço com o que agora compreendo e estou em uma constante busca?”. Eu escrevo, ilustro, crio e compartilho sobre os nossos. Eu me curo quando eu promovo isso pensando no individual e coletivo.
Deixo um poema sobre ser escura:

Arte: Emile Brito

Escuramente Preta
Escuramente preta e eu não vou me desculpar por isso!
Não me desculparei por ver beleza na minha pele escura,
Eu não vou me desculpar pelo brilho provocado pelo sol
Não vou me acanhar ao falar que a melanina que existe aqui é poderosa

Eu me peguei esses dias agradecendo a Deus por ser pretinha como eu sou
“Obrigada Deus, por ser pretinha assim, escura”
Isso é novidade, pra uma criança que chorava
pedindo pra ser branca e ter cabelo liso.

Eu é que sei das minhas dores e se eu escrevo “Preta, você é importante”
Pode ter certeza que eu afirmo isso para preta adulta que sou hoje e pra pretinha criança que eu fui, sem saber que era sim importante.

Escuramente preta

Escura, tão escura que é
com a noite que ela é confundida.
Tão escura que o brilho
da pele se avermelha ou azula.
Pele escura, cabelo escuro,
olho escuro. Toda escura!
Tão escura que só é visível a luz da lua!

Emile Brito

Emile Brito é comunicóloga formada em publicidade e propaganda, criadora de conteúdo digital e redatora publicitária. Colunista da Redação com dendê.

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