Sobre deixar ir

Eu regresso a coluna da preta para escrever sobre o retorno que gera o “deixar ir”. E, como vocês sabem, aqui eu me proponho sempre a falar sobre o amor, e isso é sobre se amar a tal ponto que exige uma atenção grande ao que te faz bem indo e/ou ficando.

Vivemos como se pudéssemos obter garantias, quando nem nós mesmos temos certezas de nada. E há uma corrida maluca pra que a gente possa se sentir o mais seguro possível, por mais que isso apague a individualidade ou machuque alguém.

Eu li algo mais cedo do Igor Pires: “Nem todos os amores foram feitos para durar”. Eu quero fazer com que essa citação possa se tornar mais ampla possível, não é só sobre romantismo. E, reformulando, eu provoco: “Nem todas as relações foram feitas para durar”.

Reproduzimos o “para sempre”, como nos contos de fadas, em quase todos os nossos vínculos. Como se o tempo de duração dissesse mais sobre a amizade do que a interação real. Como se o costume significasse mais que o afeto. Afeto não é sobre costume, é sobre acolhimento real. Não é sobre o tempo, não é sobre ontem, é sobre como nos abraçamos hoje também.

Esse texto nasceu a partir de um entendimento, de uma troca com alguém que eu conheci recentemente, onde há bastante possibilidade de diálogo honesto. O que é novo pra mim. É desconfortável, é intrigante, é gostoso e é muito humano, possível. E trago isso a partir das experiências presentes, não projetadas e/ou romantizadas. Há disposição de uma interação real e isso é muito bom.

Já percebeu como temos medo de falar coisas boas sobre relações novas, mas tendemos a exagerar nos sentimentos das relações antigas, por causa do tempo? O tempo, o segundo, o passar é o valorizado, não o que acontece durante.

Prolongamos relações rotineiras, porque perder parece muito errado. Se afastar se faz pesado, mesmo que o estar não esteja sendo sincero ou acolhedor para todas as partes. Romantizamos a nostalgia, o passado, o futuro, mas não valorizamos o presente. E sobre o agora? Como eu me sinto (agora)?

Deixar ir não é sobre falta de amor, é só que é possível acontecer, é natural. Pessoas vão embora das nossas vidas, novas pessoas chegam, laços se desfazem, as fitas se tornam ainda mais fracas ou resistentes, podendo formar um laço ou não. Não há como forçar ou pregar cegamente que não haverá mudanças que podem ser cruciais ou significativas.

O Matias (do texto “fim de tarde“) se despediu de mim lindamente. Confesso que não esperava, a nossa troca foi tão positiva que o se afastar levemente foi natural também. Ele me disse que estava indo atrás do que o coração dele, de alguma forma, queria tentar.

Confesso que estou em outra interação, e profundamente afetada, mas eu achei tão bonito da parte dele em poder usar das suas lindas palavras poéticas, o quanto que nós fomos importantes para o outro nesse período de pandemia e o quanto que nos fizemos bem. Isso foi tão saudável, tão real, tão presente, que eu não saberia me sentir ainda mais grata por ter encontrado e por ter essa linda pessoa na minha vida.

Trago essa história pra que não esqueçamos que deixar ir é sobre deixar vir também! É sobre respeitar as histórias que foram, mas que já não são mais, ou que ganharam uma nova roupagem. É sobre abrir caminhos para nós mesmos e para quem for de caminhar junto.


Emile Brito

Emile Brito é comunicóloga formada em publicidade e propaganda, criadora de conteúdo digital e redatora publicitária. Colunista da Redação com dendê.

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